Coisas de vó…

Queria gritar pra todo o mundo
mas todo o mundo não entenderia
Apenas quem recebeu um afago
das pequenas e pintadinhas mãos
ou teve um choro enxugado
no avental úmido, abraço
Queria gritar pra todo o mundo
mas todo o mundo não entenderia

Só quem escalou aquelas goiabeiras
mil vezes à fio, decorou o caminho
ou dormiu no sofá-cama bege, coberto
com a manta cheirosa, retalho fininho
sonhou observando o brilho da janela
a luz lá da rua, pontinhos no vidro
Queria gritar e contar sobre ela
mas todo o mundo não entenderia

Quem acordou cedo mas nunca antes dela
ouviu Jovem Pan e o Narciso Vernize
se escondeu nas telhas de barro empilhadas
ou no armário embutido sem que ela visse
se lavou no tanque de cimento, batido
dominou carruagens nos fios do varal
levou uma bronca “vai quebrar o ferro!”
mas sempre viu seu sorriso no final

Queria gritar pra todo o mundo
mas todo o mundo não entenderia
Só quem se furou naquele limoeiro
descascou goiaba e comeu doce ao final
sentiu um medinho do alçapão do banheiro
leu uma Reader´s Digest, O mílite e tal
jogou tetris, memória e roba-monte com ela
mexeu na torneira com cano branco no quintal

Quem tampou o cano que escoava a água
e brincou pra valer nos dias de sol
quem andava no muro “vai cair… ó… cuidado!”
sabia os causos da Telefônica e da Trol
ouviu longamente as histórias longínquas
se esquecesse um nome não se conformava e ria
é… queria gritar e contar sobre ela
mas todo o mundo não entenderia

Só quem andou no seu fusca bege
pelo furo do piso viu o asfalto correndo
pra ajudar um parente, uma amiga ou um qualquer
bastava dizer que estava sofrendo
Quem viu fazer lençol pro hospital de queimados
ou no bazar da igreja vestir um mendigo
ofertar prato cheio pro andarilho cansado
levar esperança ao recluso em presídio

só quem viu sua fé, piedade e bondade
quem viu, sob os óculos a lágrima correr
Quem viu criar as suas, de outras e um neto-filho
quem ouviu trocar seu nome, por muitos amados ter…
É…queria gritar pra todo o mundo
mas essa voz vou fazer calar
tudo que cala fala mais forte à alma
e falar à quem não entende é desperdiçar

vou me lembrar cada dia de tudo,
grato à Deus por tais dias vividos
e se Ele permitir, repetir na Glória
reunido à Regina e outros tantos queridos.

“E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória;
E todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas;
E porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda.
Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;
Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me;
Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.
Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?
E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos?
E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.
Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; ”
Mateus 25. 31 - 41.

Num escuro início de Abril de 2010

Você me diz o quanto anda aflito
confesso, vai igual meu coração
um vale só de dor, um precipício
e assim nossos lamentos fazem a união

Sem força, sem razão, sem esperança
à espera do pior que pode acontecer
Que tal se a gente unisse a nossa a voz em petição
não mais pra lamentar, mas pra clamar, interceder

Derrama oh Senhor, o teu renovo
mais uma vez nos salva
do Espírito, o consolo
socorre nosso coração
pôe fim nessa tristeza
completa tua boa obra em nós

E se a gente parar com tudo agora
levantando ao Senhor uma oração
contar em mil detalhes nossa história
àquele que já sabe, mas que ouve em compaixão

Explicar como o pouco amedronta
e o medo que anuncia o anoitecer
de como fé faminta anda tonta
rogar pra que Ele acampe aqui até amanhecer

Tolice

Tolice é não estar atento
ao que acontece ao seu redor
é enxergar só a cifra
o avanço do cronograma
não ver a grama lá fora
não ver o amigo que chora
não ver quantas vezes ele parte
mesmo estando ali todo dia
sentado lado a lado
Tolice é ser assim:
desumano e alienado.

Tolice é ressentir-se do passado
é viver saudade aguda
quase um reclamar otário
de um tempo que se foi, marcante
e ignorar que no presente instante
Deus refaz, e faz de novo, e de novo

(e aqui eu posso dar uma “dane-se” à métrica, à rima, ao verso e ao ritmo
e ficar interminavelmente contemplando ao nosso Deus por essa ímpar e eterna
capacidade de fazer novas todas as coisas, todos os dias, todas as manhãs,para todo o sempre,
através da obra salvadora de Jesus e pela divina habitação do Espírito Santo aqui, dentro de nós.)

um dia tão marcante quanto os de antes
formoso, vigoroso, incrível
memorável, inesquecível, insubstituível
tolice é ser assim:
Ingrato e incorrigível.

Tolice é ainda limitar-se
não deixar vazar amor diário
economizar um abraço
poupar um elogio rasgado
estreitar um sorriso largo
reter a mão de escrever um verso
não soltar a voz contente
mas fazer o inverso sempre
sufocar o consolo à quem pavor pressente
tolice é ser assim:
Sonegador e inclemente.

Colossenses 1.15 O qual (Jesus) é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação;

Esteve lá, desde sempre.
Com seus olhos curiosos
A sondar-me astutamente
Meio igual, mas diferente
Bem mais alto, imponente
Não negava sua mão
Companheiro de aventuras
Do universo às goiabeiras
No pavor da noite escura
Esteve lá o mais velho irmão

Ia primeiro, desde sempre
Bandeirante, pioneiro
Abrindo trilhas na mata
Sem usar nenhuma faca
Machado, cinzel ou nada
Ia só com o coração
E sua caixa, o velho peito
Mais velho que o meu, ao menos
Digno de impôr respeito
Ia à frente o mais velho irmão

Chegou primeiro, como sempre
Aos destinos dessa vida
E eu atento, atrás colhia
Cada sucesso ou tropeção
Guardava na minha alforja
E os sucessos repetia
Dos tropeços arremetia
Nem sequer imaginava
Todo o bem que trazia
Meu querido e mais velho irmão.

Esteve lá, desde sempre
Com seus olhos poderosos
A sondar-me intimamente
Meio igual, mas diferente
Bem mais alto, onipotente
Não negou-me sua mão
Fez-se fraco e limitado
Do alto trono à estrebaria
Brilhante luz da noite escura
Esteve lá o mais velho Irmão

Ia primeiro, desde sempre
Leão forte, frágil Cordeiro
Abrindo trilha na morte
Expondo seu corpo aos cortes
Pregos, corôa e chicote
Privando o meu coração
De minha saga, velho decreto
Mais velho que eu ao certo
Digno de adoração
Foi à frente o mais velho Irmão

Chegou primeiro,merecedor
À morada do Pai, tesouro
E eu atento, atrás colho
Cada exemplo e lição
Guardo-os fixos em minh´alma
Em minha mente ecôo
Com meus atos apregôo
Com certeza bem sabia
Todo o bem que me traria
Meu querido e mais velho Irmão

Uma simples questão de escala
Quem tem juízo trema ao comparar
Avaliar as realidades
E recolher-se ao devido lugar

Pré-existente, imortal
Potente, presente e ciente Deus
E eu, um vapor temporário (Tg 4.14)
Pó, inglório e vil… quem sou eu?

Permita-me ao menos
Assentar-me à tua sombra, oh Senhor
Prostrar meu rosto em terra
Expôr-me a um fio de teu poder quebrantador

Derramar meu coração contrito (Sl 34.18)
De retidão encher os meus caminhos
Se alguma força há em mim
É porque fraco sou perto de ti (II Co 12.10)

Quem alicerçou toda a terra (Jó 38.4)
E as dimensões tomou com seu cordel? (Jó 38.5)
Quem limitou ao mar com portas (Jó 38.8)
E produziu constelações no céu? (Jó 38.32)

Ao vento impõe itinerário
À chuva estabelece horário, é Deus
Pra contender contra o poderoso, (Jó 40.2)
me diz você: quem sou eu?

Permita-me ao menos
Aquietar-me ao teu redor, forte Senhor
Não confundir intimidade
Com folga, altivez ou destemor

Derramar meu coração contrito (Sl 34.18)
De retidão encher os meus caminhos
Se alguma força há em mim
É porque fraco sou perto de ti (II Co 12.10)

Diga para os temerosos:
Não há nada a temer.
Poderoso é o teu Senhor
quando clama o Teu nome

Ele vem pra te salvar
Ele vem para te salvar
Diga ao cansado: o teu Senhor virá!
Ele vem pra te salvar

Ele vem pra te salvar
Ele vem para te salvar
Contempla ao Senhor e te levantarás
Ele vem para te salvar

Diga pra os abatidos:
Não percam a fé
Poderoso é o teu Senhor
quando clama Teu nome
Ele então virá

Ele é teu refúgio em meio às lutas
Um escudo na tempestade
Uma torre na tristeza
fortaleza em meio a batalha

Adhemar de Campos (gravou, pelo menos…)

Nada como ser um redimido
Nada como ser filho de Deus
E bem cedinho de manhã saber
que as misericórdias do Senhor
se renovaram (Lm 3.22-23)

Nada como ser um redimido
Nada como ser filho de Deus
E em meio à tantas incertezas que
querem me cercar eu sei que salvo sou
estou em Cristo

Nada como ser um servo útil
nada como ser filho de Deus
e passo-a-passo então sentir
que estou pisando as marcas que Jesus deixou
pra que eu seguisse
sim, pra que eu seguisse com muita fé

Pois Cristo está comigo onde quer que eu vá
nas horas de alegria e de dor
Pois nada neste mundo pode ser melhor
do que estar bem perto do Senhor

(Paulo Cesar)

(…)mas trago à mente as muitas vezes
em que olhando para os meus temores
como montanhas instransponíveis
quase perdi o momento
em que o Deus poderoso as superou
com um escapar de seu menor dedo
quase involuntariamente
o Eterno transformou a dura montanha
em pasto verde plano,
rio tranquilo caudaloso,
recanto de paz e esperança.

Não posso mais cantar
e a culpa é dessa mente
que me conduz à ousar a imaginar
a visão do reino que canto
do Rei que exalto
do poder que deténs
e então…
não posso mais cantar.

Não posso mais cantar
pois mesmo o meu falho
e incompleto esforço de imaginação
(ínfima representação do Seu todo)
é suficiente pra me prostar sem que eu o peça
sem que eu requisite
não que não o desejasse
não que o permitisse,
e então…
não posso mais cantar.

Não posso mais cantar
por que os olhos da alma O contemplam
porque os olhos do rosto se cerram
a racional devoção emociona-me
rende-me, imobiliza-me
e então,
Sua vaga me absorve
faz verter dos olhos chôro
e apesar do Seu todo que conclama
ao canto o adorador rendido
já não posso respirar sem choro
não…
mesmo diante de minha visão caolha
não posso… não posso mais cantar.

Como ave peregrina sou
a rasgar livre o céu
a usufruir esse infinito azul
e o vento a me tocar
é bom ser livre, ser Teu
Como é bom sentir a tua mão
me livrando das armadilhas
mas Senhor, me perdoe
pois por vezes sou levado,
por meus instintos de ave,
a desejar os grãos do passarinheiro.
Olho os grãos, me esqueço de ti.
Livra-me Senhor da prisão.

Quero viver tua liberdade
rasgando o céu rumo à Ti

Voar pelo azul da tua paz

Sentir o vento do teu Espírito a soprar sobre mim!

(De Carlinhos Veiga, gravado também em “Expresso Luz - Ao vivo - 20 anos - 2007)

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